O quebra-nozes murmura qualquer coisa à bailarina de cristal. Ela ri-se, a cortina da janela estremece e fogem os dois pelo buraco da fechadura.

Faz frio cá fora.
E o pinheiro arde, ao som de dois ou três passos de dança.



Last Christmas de Samanta













A casa assombrada ficava para lá do descampado, ervas daninhas, giesta um pouco, carqueja, talvez. A estrada cortada pelo caminho das cabras e a casa, que dizíamos assombrada e estou certa de que o era e ainda será. Dançava uma mulher na noite escura e o pátio da casa iluminava-se de muita lua e o assombro inundava-lhe o rosto e era tão belo e sempre será. Atiravam-lhe pedras aos vidros das janelas, os rapazes da rua, que jogavam ao berlinde e bulhavam no recreio da escola, mas nunca lhe tocaram num fio de cabelo, nem no gato que miava no jardim. E nós escrevíamos esta história numa folha de papel de cenário e ilustrávamos a tinta da China com um traço frio e fino como este mês.



Haunted house de Samanta












ninguém nos leva, morremo-nos
como as folhas no carreiro, como o gelo que se faz água

e a luz, a luz a teimar a madrugada


But the night is still young de Samanta












Vamos apanhar borboletas, disse a rapariga. O cão inclinou ligeiramente a cabeça para o lado direito e não respondeu. 
Não, corrigiu a rapariga, vamos apanhar rãs. Descalçou-se, prendeu a saia e entrou na água. Os mosquitos zumbiam e desenhavam círculos na superfície espelhada. A rapariga apanhou três pedras redondas e disse, vou fazer um pássaro e correu com a rede, as pedras, as sandálias e o cão. Ladraram os dois antes de chegar a casa.



Joyful conspiracy de Yvette Depaepe














Gostamos de regar o jardim em julho. Em agosto também. Largamos as sandálias nos degraus da escada, o cão ladra e salta à nossa volta, os insetos zumbem no calor da tarde e esquecemos os lugares onde não queremos regressar. Depois, as margaridas e as hortências permanecem sedentas e nós empapamo-nos em terra e água e é feliz o verão.



Kevin has fun de Allan Wallberg










Conta-me outra vez. Das praias do mar do norte, do sargaço, do vento frio das manhãs. Da maré plena, da areia molhada e do nevoeiro. Da voz da Callas e do teu pai e de como entoavam os três, tu, ele e ela, essa aria de Puccini e eu aqui a esta distância de tempo e espaço, a ouvi-los, sem compreender muito bem os postais ilustrados, as meninas de laços, as flores dos dias de festa, se não era uma festa que te morria no peito então o que era. Um ponto rasgado a cruz. Eras a diva, a rapariga abandonada na floresta, a casa branca, a fissura na rocha, a contradição, a contrição. 
E nesse salto cego e surdo onde é que estava deus para te agarrar.


a Filomena Claro



Summer's flight goodbye de Yvette Depaepe