Gostamos de regar o jardim em julho. Em agosto também. Largamos as sandálias nos degraus da escada, o cão ladra e salta à nossa volta, os insetos zumbem no calor da tarde e esquecemos os lugares onde não queremos regressar. Depois, as margaridas e as hortências permanecem sedentas e nós empapamo-nos em terra e água e é feliz o verão.



Kevin has fun de Allan Wallberg










Conta-me outra vez. Das praias do mar do norte, do sargaço, do vento frio das manhãs. Da maré plena, da areia molhada e do nevoeiro. Da voz da Callas e do teu pai e de como entoavam os três, tu, ele e ela, essa aria de Puccini e eu aqui a esta distância de tempo e espaço, a ouvi-los, sem compreender muito bem os postais ilustrados, as meninas de laços, as flores dos dias de festa, se não era uma festa que te morria no peito então o que era. Um ponto rasgado a cruz. Eras a diva, a rapariga abandonada na floresta, a casa branca, a fissura na rocha, a contradição, a contrição. 
E nesse salto cego e surdo onde é que estava deus para te agarrar.


a Filomena Claro



Summer's flight goodbye de Yvette Depaepe














O senhor Artur vendia jornais num quiosque azul junto da estação. Era o dono do Mundo de Aventuras, das carteiras de cromos para a coleção, das bonecas de papel e quatro vestidos para recortar, dos cigarros SG filtro, dos Provisórios e dos Português Suave, long size, que era uma forma muito particular de ser português. Ritz também. O senhor Artur sabia quem partia e quem chegava, quem se atrasava e sobretudo quem faltava à escola. Os trocos eram dados em pastilhas elásticas e se fosse preciso ralhava. 
Depois quando a manhã já ia a meio e o largo da estação acalmava, sentava-se num banco a beber um café e assobiava a Marselhesa.  



Mr. Antonio in his small kiosk de Antonio Grambone














tenho um arco, uma flecha, um cordão
uma pena de ave, um bom olhado

meu irmão



fotografia de Joxe Inazio Kuesta Garmendia















Lembras-te do lugar das sapatilhas cor-de-rosa, no armário debaixo da escada que ia para o sótão. Nós é que íamos, a escada estava ali para nos levar e trazer ao lugar das sapatilhas cor-de-rosa. Lá em cima habitava um anão que nos contava histórias e no seu enorme nariz cabia um veleiro de três mastros, um barril de pólvora, uma casa de chocolate e um soldado pé de chumbo. A bailarina eras tu e calçavas as sapatilhas cor-de-rosa.
Um dia o anão desapareceu e o caruncho roeu os degraus da escada. Subíamos então ao telhado e ficávamos a conversar a noite inteira e no céu estrelado navegava o veleiro de três mastros e no quarto minguante, o perfil de chocolate da casa.
E sobre as telhas de Marselha que saudades do lugar das sapatilhas cor-de-rosa.



Ballet de Pauline Pentony













Nos terrenos por detrás da casa, eram bravios os terrenos, habitava um cigano e o seu cavalo preto. Também havia uma fogueira, uma panela e o cavalo a galopar no terreno bravio por detrás da minha casa.
O que é que queres ser quando fores grande. Já sou grande, mas quando crescer quero ser cavalo e sentir bater o coração cigano e bravio e a fogueira a arder na noite fria por detrás da minha casa.



Arod de Sherry Akrami